Agronegócio


Crise hídrica afeta a produção de alimentos

Falta de chuvas gera preocupação para o plantio do arroz em setembro, que tem 77% da produção irrigada
29/06/2021 O Sul

A crise hídrica no Centro-Sul do País atinge importantes regiões produtoras de alimentos no Brasil que já sentem nas lavouras e criações os impactos da seca, como expectativa de diminuição de colheita, prejuízo no desenvolvimento dos frutos e qualidade das pastagens.

Muitas culturas começaram a enfrentar esses impactos já no ano passado, como é o caso da laranja e do café. Outras, como o feijão e a pecuária de leite e de corte passam, neste momento, por dificuldades na produção.

Além de problemas nas lavouras, o produtor também enfrenta aumento de custos, como gastos com energia e ração. E esses fatores podem contribuir para sustentar ou aumentar os preços de alguns produtos agrícolas, o que, por sua vez, tende a se refletir no preço ao consumidor, diz o gerente de consultoria Agro do Itaú BBA, Guilherme Belotti.

A seguir, veja um resumo de como estiagem está prejudicando ou já afetou 7 grupos de alimentos:

Feijão

A seca prejudicou a segunda safra de feijão entre janeiro e abril e fez alguns produtores desistirem de plantar a terceira entre maio e julho, conta Marcelo Eduardo Lüders, presidente do Instituto Brasileiro do Feijão, Pulses e Colheitas Especiais (Ibrafe).

No Paraná, por exemplo, a falta de chuvas atrapalhou o desenvolvimento das plantas, resultando em uma colheita de segunda safra 20% menor do que a projetada em janeiro pelo Ibrafe. O estado é o maior produtor de feijão do País e é responsável por prover um terço da segunda temporada.

Leite

A produção leiteira também está sendo impactada pela seca.

Durante o outono e o inverno, é normal que o baixo volume de chuvas reduza a qualidade das pastagens.

“Entretanto, neste ano, a seca tem sido mais intensa, atingindo com gravidade importantes bacias leiteiras do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país e prejudicando a alimentação volumosa do rebanho”, afirma Natália Grigol, em um boletim do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-USP).

Carne bovina

Assim como na produção leiteira, a seca mais forte do que o normal no inverno também reduz a qualidade das pastagens usadas pelo gado de corte. O resultado deverá ser, portanto, uma redução da oferta de bovinos de pasto para o abate neste ano, prevê Belotti, do Itaú.

O setor passa por uma diminuição na oferta há algum tempo e ela é um dos motivos que provocou a disparada do preço da carne que, em 12 meses até maio, já subiu quase 40%.

E os produtores que trabalham com confinamento de gado também estão pressionados por causa do aumento dos custos com a ração.

“Então, pode ser que a gente não tenha um aumento da quantidade de animais confinados e isso pode impactar na oferta de animais prontos para serem abatidos. Isso, por sua vez, pode reduzir a disponibilidade de carne e, consequentemente, aumentar preço”, afirma.

Frango, porco e ovos

A produção de ovos e de carnes de frango e suínos também sofreu, indiretamente, os impactos da seca nas lavouras de milho. A falta de chuvas prejudicou o desenvolvimento do grão que, junto com farelo de soja, representam 70% dos custos de produção do setor.

A estiagem, associada ao aumento do valor do milho no mercado internacional, pressionou os custos de produção do setor, que chegou a pedir ao governo federal uma autorização para importar mais uma variedade de milho transgênico dos Estados Unidos.

Arroz

O arroz está com uma colheita superior à safra passada, mas a seca traz preocupações com o próximo plantio, que começa em setembro. É preciso que haja um bom volume de chuvas até lá para encher os reservatórios de água usados para irrigação.

A colheita de arroz na temporada 2020/21 deve chegar a 11.626 mil toneladas, alta de 4% em relação à safra 2019/20, segundo a Conab.

Laranja

Em relação à cultura da laranja, o baixo volume de chuvas e as altas temperaturas nas regiões produtoras estão limitando o crescimento das frutas, que já sofreram atraso com a seca do ano passado.

A onda forte de calor entre 30 de setembro e 7 de outubro no cinturão citrícola de São Paulo e Triângulo/Sudoeste Mineiro atrasou a principal florada da safra, que ocorre justamente nesses meses. O cinturão produz 80% das laranjas do País.

A florada é o período em que os frutos começam a nascer. Em alguns municípios produtores, ela acontece entre julho e agosto, mas muitos dos frutinhos que cresceram nessa época caíram por causa do calor, conta Vinícius Trombin, coordenador da Pesquisa de Estimativa de Safra do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus).

Café

O café é uma cultura que já sente os impactos do déficit hídrico desde o ano passado, assim como a laranja.

“A falta de chuvas interferiu na pega da florada e, posteriormente, no enchimento de grãos”, conta o presidente do Conselho Nacional do Café (CNC), Silas Brasileiro.

A florada do café ocorre na primavera, entre setembro e outubro. Neste momento, a colheita do grão ainda está ocorrendo. Ela começa em março e vai até o início de setembro.

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